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C e l i n h a

 

UM SOL GUERREIRO

(A todas as crianças negras assassinadas em Atlanta e

a muitas outras crianças assassinadas todos os dias

no ventre da humanidade)

Já não ouço meu pranto

porque o choro emudeceu

nos meus lábios

O grito calou-se

em minha garganta

o sol da meia-noite

cegou-me os olhos...

Sou noite e noite só

O meu sangue espalhou-se

pelo espaço

E o céu coloriu-se de um tom avermelhado

como o crepúsculo

E eu cantei

Cantei porque agora a chuva

brotará da terra.

As sementes de todos os frutos

cairão sobre os nossos pés

E germinaremos juntos

Embora tu não possas mais

tocar as flores deste jardim, eu sei

Mas o teu solo é livre

Cante, menino,

cante uma canção que emudeça os prantos,

que repique os ataques

e ensurdeça os gritos

Porque amanhã não haverá mais

nenhum resto de esperança

não haverá mais um outro amanhecer,

pois certamente muito antes

de surgir um novo dia

um sol, guerreiro, há de raiar

à meia-noite, para despertar o teu sono,

Como uma nova alvorada.

Celinha

CELINHA (Célia Aparecida Pereira) nasceu em 1956 e reside atualmente em São Carlos/SP.