Lepê Correia

Temporal no Barraco de Binho

E do sol... nem sinal! Já chovia havia quase doze horas. A água descia levando em seu trajeto capim, pedra, lodo, areia e algumas esperanças. Mas trazia algo que não deixava ninguém no morro em paz: o medo.

O medo é um negócio esquisito. Invade o coração, espalha-se pelos ossos e faz tremer as carnes, sem que o indivíduo queira. Acelera as batidas do coração e traz visões sobre visões, numa velocidade impressionante.

Foi assim que Binho, da janela, viu passar seu gatinho, enrolado em pedaços de plástico, com as patas enganchadas no cordão de um carro de lata, que, sem freio e sem controle, era conduzido pela água que descia morro abaixo. Pixuí era um gatinho preto e branco, que agora não passava de uma coisa molhada e suja de barro vermelho-amarelado, rolando pelos regos e buracos da ladeira que tantas vezes subira e descera, carregado por seu dono.

— Mãe, mãe — gritou, angustiado, o menino. — A chuva levou Pixuí. Vai buscar o meu gatinho... — chora.

Era um choro desesperado, dando a impressão de que seu próprio corpo estava sendo arrastado pela força da enxurrada.

— Que danação é essa, menino. Pra onde vou eu, como uma doida, nessa chuva, atrás de condenado de gato?! — esbravejou a mãe.

— ...

— Eu tenho mais é que botar a bacia e os canecos pra aparar as goteiras do quarto e da cozinha. Essa sala já virou um rio mesmo...!

Um estrondo ensurdecedor abafou as últimas palavras da mãe. Parecia que o céu tinha se partido e um pedaço mais pesado, despencado à toa. Gritos, lamentos, choros de desespero e água por todos os lados encheram ainda mais a tardinha... E como uma câmera de tevê, filmando a esmo com efeitos especiais, os olhos de Binho contemplaram, assustados, o caibro da cumeeira se partir e a cozinha do barraco, que dava para a borda da barreira, ser projetada no abismo como um vagão de trem que se desengata. Um grito a mais se mistura aos estalos e desmoronamentos...

— Mamãeeeee! — Um som rouco, engasgado, saiu de sua garganta. Algo parecido com um disco voador foi projetado no barranco. Era a bacia, apanhada por um pedaço de telhado em sua borda. Um chinelo, como que dizendo adeus, a acompanhou e a mãe... meu Deus...?! — Tudo escureceu!

O sol se abriu, para a festança das tanajuras e outras formigas de asa e os demais insetos friorentos. Uma dor pontiaguda nas costas e costelas despertou o pequeno Binho. Estava deitado sobre um lençol que forrava o chão. Assustou-se, mas logo reconheceu o ambiente que tanto pisara em dias de alegria... As lembranças lhe vieram aos turbilhões. E a mãe, e a bacia? Seus olhos esbugalharam-se vendo tanta gente a sua volta. Seu coração bateu acelerado e as cenas, como um looping, começaram a cirandar em sua cabeça. Para seu desespero, pararam na última que ele vira antes do “sono”. A mente interrogou e uma quase certeza veio como resposta...

— Nãããooo, sozinho não — Binho gritou, como que adivinhando que sua mãe teria tido o mesmo destino da bacia. Sim, ele tinha visto o chinelo acenar o adeus e mergulhar no precipício....

— Binho, meu pirroto!

Essa frase ele conhecia. Sim, conhecia..... Tudo começou a acinzentar-se de novo, mas ele fez fincapé pra não “dormir”outra vez e virou-se para o lado do qual viera o som da voz. As lágrimas desceram como a enxurrada que vira, naquele dia, passar, do alto de sua janela. Ali, no pátio de sua escola — no lugar onde merendava todo dia —, entre trouxas e troços velhos, crianças, mulheres enroladas em trapos, homens de olhares perdidos... era ela!

No canto da parede... perna enfaixada, rosto ainda com restos de sangue, cabeça com tampão de esparadrapo... Era ela! Sem chinelos, mas estava ali...

E mesmo com toda a claridade do sol, Binho outra vez mergulhou nos braços da escuridão... chamando por Pixuí...

Lepê nasceu em Recife e mora atualmente em Olinda. É psicólogo e jornalista, dentre outras atividades.


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